Nenhuma personalidade reúne, com igual amplitude e profundidade, as credenciais para simbolizar a cultura nacional quanto o único príncipe nascido em terras americanas. Foi a partir dessa convicção, amadurecida em reflexões históricas e reafirmada em duas conferências recentes, que propusemos a designação de Dom Pedro II como Patrono Perpétuo da Cultura Nacional Brasileira.
A proposta foi inicialmente apresentada no Colóquio Nacional dos Institutos Históricos, realizado em Goiânia em 31 de outubro, e reafirmada no Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, em 2 de dezembro, quando celebramos o bicentenário do soberano brasileiro.
Em todo o país, a efeméride instigou a anamnese da influência do Imperador na formação da identidade, da cultura e da consciência nacional. Entre estudiosos e pesquisadores, consolidou-se a percepção de que o monarca não apenas exerceu a chefia de Estado mais longeva da nossa história, mas foi o maior artífice do espírito civilizador brasileiro.
Sua atuação intelectual era vasta e organicamente integrada à alma da nação. Seu legado estende-se às artes, ciências, literatura, música, educação e vida institucional, irradiando valores duradouros que alicerçam a cultura pátria.
No campo científico, destacamos a sua contribuição à astronomia, merecendo registro que o Dia Nacional, dedicado à disciplina, foi fixado na data do seu natalício. Na literatura, os recursos estilísticos de seu mais comovente poema, Ingratos, sentimos ecoar nos Versos Íntimos de Augusto dos Anjos. Nenhum outro governante brasileiro transitou com igual maestria entre política, ciência, letras e artes.
Com rara erudição, poliglota e leitor incansável, além de mecenas de instituições científicas, literárias e culturais, o Regente Magnânimo projetou ao mundo uma imagem luminosa do Brasil. Dialogava em cartas com intelectuais de prestígio universal, como Graham Bell, Charles Darwin e Richard Wagner.
Alphonse de Lamartine o definiu como príncipe-filósofo, Louis Pasteur o reconheceu como homem de ciência e Victor Hugo, em síntese expressiva, o chamou de neto de Marco Aurélio; este, o imperador romano que refletia o arquétipo platônico de rei-filósofo, reforçando-se a precisa leitura de Pedro Calmon sobre a personalidade referencial de Sua Majestade. Nesse sentir, Aurelino Leal, com toda a sua convicção republicana, não hesitou em reconhecê-lo como o maior dentre os brasileiros.
Ergueu-se, assim, uma das figuras morais do século. Contudo, a estatura do nosso emblema civilizacional contrastava com a realidade de um país marcado por profundas contradições históricas.
Embora a cultura brasileira, por vezes egocêntrica e lisonjeira, nos embarace a confissão, a verdade é que a nossa pátria permanecia em descompasso com suas potencialidades naturais e o povo deste solo seguia imerso em decadente pobreza moral e material. Era preciso superar nossos vícios sociais mais corrosivos, como luxúria, cobiça, ostentação, imprevidência, desrespeito pela ordem legal e cordialidade bestial. Diante desse cenário, a confiança no Brasil como país do futuro só poderia nascer da esperança de não ser pior que o passado.
Para alcançar um destino digno e próspero, a Terra de Santa Cruz precisaria encontrar um sentido de integridade e decência, extraindo das legítimas expressões populares a sofisticação humanística para uma cultura superior, mediante critérios de excelência e densidade estética.
Assim, o Segundo Reinado procurou inspirar o desenvolvimento humano, integrando diversidade étnica, emancipação individual e vocação civilizadora. Com essa finalidade, reconheceu o entrelaçamento étnico como núcleo vivo da nacionalidade e preencheu a lacuna medieval por meio da tradição literária, exaltando a natureza e o folclore. A despeito da alegação de apropriação simbólica, de fato o indianismo elevou o indígena à insígnia patriótica, emoldurado pelo esplendor da selva tropical.
Ao afirmar o ethos brasílico e estimular a lapidação moral de cada indivíduo, regeu-se uma verdadeira sinfonia nacional. Entretanto, o ideal civilizacional esbarrava-se no regime servil, de modo inconciliável com os valores fundamentais da liberdade e da dignidade, tornando inevitável a abolição da escravidão.
Consciente da impossibilidade de súbita mudança da índole de um país profundamente escravocrata, o Augusto Benemérito enveredou-se pela via gradual, concretizando a abolição, com atraso, pelo concerto entre movimento abolicionista e leis progressivas, que culminaram na Lei Áurea, sancionada pela redentora Princesa Isabel.
Mesmo com estes substanciais entraves, a efígie de Dom Pedro II projetava-se internacionalmente como ícone de refinamento, moderação e espírito filosófico, mediando o Brasil com o mundo, sem jamais renunciar à essência da pátria. Sob o lema “altiora semper petens”, o monarca ilustrado buscava sempre a elevação de si, do seu reino e do seu povo, através da ciência e da educação.
Sua imagem paradigmática ensina que a cultura não é luxo da nação, senão a matéria-prima que a edifica; não é simples ornamento de uma classe, é sobretudo o instrumento essencial da cidadania e da liberdade. Eis o arquétipo de rei-filósofo da nação brasileira.
Essa combinação de lume universal, distinção ética e relevância histórica sustenta a proposta de consagrá-lo Patrono Perpétuo da Cultura Brasileira, pela sua tutela do conhecimento, das artes, das letras, da ciência, das academias e instituições congêneres, bem como do interesse nacional.
A concessão dessa honraria, por lei federal, corrigirá uma lacuna histórica e prestará um justo tributo à sua eminente personalidade. Bem assim, para além das disputas políticas imediatas, será um convite à reflexão constante sobre os caminhos e valores da sociedade, no sentido do aprimoramento cívico que nos conduzirá à superação de renitentes contradições históricas.
Fonte: Tribuna da Bahia, Ano LVI, n.17.551, p.6, 13/12/2025.